Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

As palavras erradas#Parte 2

"Tu escolhes entre ser normal, gorda ou magra, mas quem manda é a sociedade"

 

14 anos. Foi com esta idade que a coisa começou, não de forma tão abrupta e séria, mas começou. Ao me ter recordado de que eu invejava as raparigas da minha idade, lembrei-me que o meu foco em perder peso em resultado de uma conversa com as minhas melhores amigas. Tínhamos uma colega na turma, que era magríssima, alta como eu, mas eu tinha curvas e ela era recta. Era frágil e eu não. As minhas amigas diziam que ela podia ser modelo, tinha corpo para o efeito. E eu perguntei:

"Acham que também podia ser modelo?"-disse

Elas olharam para mim, de alto a baixo, e uma delas em tom de troça:

"Achas. Nem pensar!"

Eu calei-me. Não sabia onde me esconder. Não quis chorar à frente delas. Disse que ia à casa-de-banho. Fui. Fechei-me e chorei até a campainha dar o toque. Chorava e chorava. Pelo menos ninguém me iria julgar ali fechada. Mas  eu nem sequer queria ser modelo, nem me cativava tal profissão. Era mais inteligente que isso, os meus sonhos eram mais ambiciosos que desfilar numa passarela, mas eu só queria que naquele momento da pergunta, elas me tivessem dito: "Claro que sim!És linda"

Mas não. Ainda dei mais razões ao que me disseram no Verão. A minha mãe tentou dissuadir-me de emagrecer, mas era minha mãe. Preocupava-se comigo, mas eu só queria ser bonita e ser aceite. Na altura eu andava no 8º ano. Tinha tudo. Tinha excelentes notas, era feliz mas o problema começava a assentar. Eu começava a questionar a moda. Questionava o que era bonito e feio. Lembro-me de ver na TV uma modelo que morreu com anorexia, nem eu sabia o que era... Durante o 8 º ano fiz dietas malucas. 2 refeições por dia. Não ia à cantina comer tantas vezes. De manhã tinha compulsões alimentares. Comia um pacote de bolachas Maria com leite até ficar papas. Não almoçava. Chegava a casa e bebia leite com chocolate. Eram as minhas duas refeições diárias. Emagreci, mas nunca foi o suficiente...

Quando chegaram as férias de verão comecei a isolar-me. Tinha começado a ser vegetariana. Era mais uma arma que eu usava para poder perder peso, justificando sempre que era pelos animais. E era sim, mas era mais a dieta. Queria focar-me na dieta, no exercício. Houve alturas em que engordei. Mas no final do Verão pesava menos 10 kg. Eu tinha um diário que registava a perda de peso e o objectivo final. O objectivo era atingir os 49 kg e ficar como a Kate Moss. Sim foi no corpo dela que eu peguei e associei como um corpo bonito e dentro dos padrões aceites pelas maioria das pessoas. Nesse Verão fui visitar a minha familiar, a tal que me chamou de gorda e incapaz de fazer dieta.Queria que ela visse com os seus próprios olho que eu tinha sido capaz de perder peso. Queria que ela me dissesse na cara que estava enganada, mas bastou o olhar dela. Nesse dia era o aniversário da filha, e eu para reforçar a ideia de quer estava forte, nunca  toquei nos petiscos da festa de aniversário da filha. O bolo de aniversário levei-o comigo num guardanapo para casa. E meti-o sanita abaixo. Fiquei ali, a sentir-me no topo do mundo. Vitoriosa.  Mas na altura sei que lhe provei que conseguia. O mesmo se passou quando voltei à escola.  Estava ansiosa por mostrar o meu novo corpo. Estava confiante. Na altura vestia umas roupas meias largas, bem não eram largas, simplesmente deixaram de servir.  Pesava 49 kg. Media 1,70. Toda a gente reparou o quão magra estava. Eu estava feliz. Mas a felicidade era efémera.

A minha mãe começou a levar-me a umas consultas no centro de saúde. Planeamento familiar. Eu estava sem menstruar. Amenorreia. É umas das consequências do baixo peso. Na altura a médica detectou que eu tinha sinais de anorexia.... Então começou a seguir-me além do planeamento familiar....

Lembro-me bem de que prescreveu um plano alimentar, que eu à força toda queria que fosse à minha maneira. Queria tudo integral. Ela não permitia. Eram bolachas. Eram iogurtes. Pão. Massas. Arroz. E eu a entrar em crise. Eu não preciso de tanta comida. Eu não cumpria o plano como devia. Eu sabotava aquele plano. Lembro-me que as consultas começaram a  ficar frequentes... Ia lá todas as semanas. Pesavam-me sempre... Ora um dia eu tinha o meu dia planeado... 

Vou-vos explicar o que era a minha rotina... (isto antes de me tirarem a  bicicleta).

Eu acordava cedinho de manhã. Comia um pão integral, tirava o miolo todo e colocava uma colher rasa de manteiga magra no pão m(uma colher de chá!). Bebia imenso café. Logo de manhã uns dois.... Bebia leite de soja, mas esperem que bebia o leite diluído em água, para ficar ainda menos calórico. Eu comia devagar. Aquecia sempre o leite diluído umas 4 vezes para ficar tão quente para eu me esquecer da fome. Ia para a escola de bicicleta. Nas horas de intervalo costumava andar com a minha melhor amiga da altura, e caminhávamos juntas. Eu lanchava o meu iogurte magro com as minhas bolachas integrais e caminhava. Não me podia sentar. Não almoçava na escola. Pegava novamente na bicicleta e lá ia eu para casa almoçar. Almoçar... Algo líquido. Eu só queria sopa, quanto mais aguada melhor. Ou triturava a comida e metia muita água para fazer parecer mais quantidade. Eu discutia com a minha mãe. Estava de alto com ela, enquanto ela fazia o almoço. Tinha medo que ela colocasse azeite, tinha medo que ela colocasse sal... Tinha medo que ela me sabotasse. Eu era horrível. Eu não era eu. A minha mãe temia-me. Que vergonha de filha que eu era...O meu irmão temia-me... Eu era o inimigo. Eu era má. Eu não era eu... Quem era aquela? Voltava para a escola de bicicleta e depois para casa. Lanchava novamente o mesmo. Pegava na bicicleta e lá ia eu outra vez pedalar 2, ou 3 horas.... Ia jantar a casa... E novamente ia outra vez andar de bicicleta... Quando dei por mim numa semana, no centro de saúde, tratei mal a médica por me fazer esperar. Estava com o dia planeado e ela estava a arruinar tudo. Só fazia perguntas estúpidas. Estava farta dela, farta de tudo. Já estava com 46 kg. Gritei com ela. Odiei-a a cada momento. Decidiu-se que eu ia ser encaminhada para Aveiro, para a especialidade de psiquiatria. Agora era real... Eu começava a perceber que as pessoas estavam a tomar controle de mim. Era o fim, mas não seria. Eu iria piorar. Eu ia ser ainda mais besta e mais obcecada que nunca. Eu ia afastar ainda mais pessoas. Eu era ruim. Era um belo saco de merda. Mas mesmo assim ninguém me deixava em paz. 

Eu queria que me deixassem, eu achava que podia continuar o resto da minha vida assim, pensava que era normal. Eu pensava que ia manter o peso assim. Mas eu sou sincera, eu nunca quis baixar dos 49 kg. Queria manter. Mas não sabia como... Eu queria simplesmente ser aceite... Queria que dissessem que eu era capaz de ser modelo, mesmo que eu não quisesse, pois eu até queria ser jornalista. Mas eu queria que gostassem de mim, que me considerassem parte de um grupo... Eu não sei... Eu tinha imensos amigos, mas perdi tudo. Era uma das melhores alunas e comecei a ser mediana... Eu já só controlava o peso... Eu tinha de conseguir ser feliz de alguma forma, pois eu estava a deixar tudo fugir-me das mãos... Os amigos, a família, a escola, os meus hobbies... A TV, tudo. Só havia uma solução, refugiar-me nisto... Manter o peso. Quanto mais perdia, masi queria mantê-lo... Não queria perder, só manter. Eu não tinah noção de nada. Não me via ao espelho. Eu usava imensa roupa, o casaco preto da minha mãe em dias de sol e calor intensos e eu sentia frio... Eu não sabia se era magra, eu só sabia que eu tinha de viver para os dígitos da balança, mas não sabia que isso iria piorar...

 

W4iA_x17pg7ngKNvf6DuKolFLFcukuXVq1vSVf9uIFc=.jpg

 "Dá para perceber nitidamente quem eu sou na foto. Esta é a única foto que tenho de mim nesta altura. Pesava uns 45 kg creio eu... O meu limite foram os 37 kg.... Não sei se existem mais fotos, e garanto-vos que só vi esta foto um ano depois...."

 

Vou continuar este post amanhã. Quero contar por fases as coisas como aconteceram, para imaginarem o que é isto. Como se processa a doença...Como é a mente de uma pessoa com um distúrbio alimentar e como esse distúrbio pode levar quase ao fim de uma vida. 

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D