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Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

As palavras erradas#Parte 3

"O teu mundo é o teu mundo, pensas estar sozinho, mas estás cercado"

 

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Esta frase descreve bem aquilo que eu passei quando cheguei ao hospital de Aveiro. Ia ter uma médica. Uma psiquiatra, pois pelos vistos eu andava maluca. Eu não sei exactamente exprimir por palavras tudo que se passou. Sei que no início adorei a médica. Era muito simpática, não era portuguesa e era magra também... Fez-me um plano alimentar, assim como a outra médica, mas pelo menos permitia-me comer alimentos integrais e beber leite de soja... Permitia-me fazer exercício, desde que moderado... (Obviamente que eu não respeitava isso)...

Fazia perguntas sobre mim. O que gostava de fazer. Quais eram os meus planos, quais as minhas frustrações...

Porém com o tempo a passar, todas as semanas que lá ia, eu ia mais frustrada que nunca, mais zangada que nunca e todas as semanas eu perdia 1 a 2 kg... Ela começou a ser agressiva. Disse que eu estava a fazer tudo mal e que a culpa era da minha mãe... A minha mãe por norma não ia sempre comigo às consultas, levava-me mas não entrava e um dia ela entrou... A médica foi horrível. Disse na minha presença à minha mãe que ela não estava a fazer bem o trabalho dela, que não tinha mão sobre mim, que eu estava a perder peso por culpa dela e que ela era irresponsável. O meu mundo ruiu! Podia-me ofender a mim. Eu estava-me nas tintas, mas nunca a minha mãe. Gritei com ela ! Levantei-me e disse à minha mãe para irmos embora, que ela era uma médica que tinha o gosto de deitar abaixo as pessoas. Incrível. Pessoa estúpida.No entanto voltámos na semana a seguir e mais uma vez perdi peso. Ela pegou no meu pulso, disse:

"Tu não tens gordura. Estás a matar o teu corpo. As pessoas normais têm uma camada adiposa que as protege. Tu nem sequer isso tens".

Nesse dia eu estava a sentir-me muito debilitada. Não conseguia respirar bem, sentia frio imenso, estava exausta. Doíam-me as pernas de tal forma que não me conseguia manter em pé durante muito tempo. Lembro-me que ela me pegou no pulso e me mediu o batimento e lembro-me da cara dela. Ela só disse:

"Deus deve querer muito que vivas, porque a tua pulsação nem se sente e é inacreditável como ainda estás viva."

Eu lembro-me de nesse dia tudo estar a preto e  branco, do frio, que eu não conseguia caminhar sozinha. Devia pesar 42 kg ou 41. Não me lembro ao certo... Sei que nesse dia não quis tomar banho. O meu cabelo estava a cair todo... Estava toda pisada. Tinha pequenas penugens no corpo.... A pele estava rija... Eu sentia-me idosa...Não quis tomar banho nessa noite porque estava muito frio. Dormi com gorro, o casaco quente da minha mãe e luvas e uma camada de mantas em cima... Mesmo assim ainda tive forças para ir à escola e fazer coisas às escondidas. Uma semana antes deste episódio, decidiu-se que a razão de eu perder peso era eu manter desporto. A minha mãe tirou-me a bicicleta. Foi o caos. Não sabia o que fazia... Então comecei a acordar às 4:00 da manhã para ir caminhar... Caminhava até às 07:00... Sim de madrugada... Lembro-me bem de haver duas pessoas que pararam para perguntar o que eu andava a fazer aquelas horas.... Assustador. Sim. Muito. Mas eu só tinha medo de engordar...

Coisas que eu fazia...

De manhã bebia 5 litros de água, sim de uma vez só, porque não conseguia ir à casa de banho, então para obrigar o intestino a expulsar o que tinha comido, bebia 5 litros! Conseguem imaginar? Acordava às 4:00 da manhã para caminhar. Fugia pela janela... A minha mãe sabia...Ela fechava a porta à chave e eu saltava da janela...

Eu mentia à minha mãe e dizia-lhe que apanhava o autocarro, mas eu não o fazia, ia com o meu irmão e  cortava por um caminho e  ia para a escola a pé...

Eu voltava  a pé e justificava estar na biblioteca, ou porque perdia o autocarro ...

Eu não almoçava na cantina... Caminhava nos intervalos...Ou a minha mãe ia-me buscar, mas eu deitava parte da comida fora...

Eu já tinha sido transferida para Coimbra, andava a ser seguida por outra médica, a melhor do mundo que tenho pena de já nem a ver ... 

Quando atingi o limite...E quando tive sorte...

A minha mãe teve de ir a França buscar o meu pai. Sim o meu pai não estava cá... Eu não sabia se ia passar cá o Natal. Eu fiquei a tomar conta dos meus avós e do meu irmão. Continuei a fazer tudo às escondidas. Incluindo eu tinha ido trabalhar para uma sapataria na Vagueira, apesar de me proibirem, e ia sempre de bicicleta para lá, sem luz sem nada... A minha avó não sabia... Quase fui atropelada por não ter luz e fui cair na vala de uma terra.

Lembro-me de no trabalho uma senhora estar a vender tripas ali ao pé e insistir que me oferecia uma tripa. Insistiu várias e várias vezes. Que eu não tinha de pagar... Lembro-me tão bem...

Quando eu andava a dar as últimas, fui-me pesar. Pesei-me numa balança no continente... Tinha pavor de ver o peso. Marcava 36,5kg. Eu pesava isso e media 1,71... 

Lembro-me de um dia estar a chorar em casa no quarto sozinha com dores que não aguentava. Não tinha os meus pais. Tinha os meus avós doentes, o meu irmão que não compreendia o que se passava. Decidi que nesse dia ia pôr termo à vida. Eu ia sim acordar às 4:00 da manhã, ia caminhar e ia caminhar para a auto-estrada e ser atropelada. esse era o meu plano de suicídio. As pessoas que me conhecem, e sabem que tive este problema não sabem que eu alguma vez pensei nisso, mas pensei e estive para o fazer. Mas não fiz... Porquê? Nessa madrugada eu já estava preparada para sair de casa, chegaram os meus pais da França...

Lembro-me da cara de horror e sofrimento do meu pai quando me viu. Deu-me um abraço. A minha mãe estava perplexa... Tinha perdido mais peso.

 

Eu quis sim morrer naquele dia. Sabia que o meu corpo não ia aguentar mais. Eu sabia que estava doente sim. Tomei noção disso mas a cabeça não me deixava comer. Eu não conseguia... Eu não era capaz. O meu corpo estava a falir por completo. Tinha hematomas por todo o lado, tinha dores nos ossos, tinhas dores em tudo o que era sítio, morria sempre de frio... Eu não queria sofrer mais e também já não tinha nada. Já tinha perdido tudo...

 

Mas o meu pai chegou... E a partir daí as coisas mudaram bruscamente....

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