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Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

As palavras erradas#Parte 4

"Não há soluções nem meias soluções, há vontade, vontade de mudar e  vontade de recuperar"

 

Quando o meu pai voltou de França e me viu naquele estado, tísico, a morrer literalmente... Eu acho que se passasse mais uns dias eu não passava dali, já estava com os órgãos todos K.O. a falir por completo e eu já não em atrevia  respirar e andar em condições...

Eu sei que a vinda do meu pai foi puro destino. Ele não era para chegar naquele dia. Justamente naquele dia. Para mim foi algo de único... Mas sabia que eu iria sofrer, pois o meu pai lidava com as coisas à maneira dele... E à maneira dele era à força. 

Nessa noite ele tinha trazido uns bolos típicos da França "Religiosas" uma espécie de Éclair, mas com um sabor divinal... Trazia uma caixa com 4 e eu comi um pouco, só para o fazer feliz por me ver comer.

Os dias que passaram comecei a ser totalmente controlada...Ainda não comia quase nada. Ainda rabujava com a minha mãe com a comida. Mas quando chegou o Natal...

Eu ainda era criança. Os meus pais habituaram-se a dar pouco mas davam algo...

O meu irmão recebeu imensos presentes e eu fiquei ali a olhar para ele... "Então e eu"...

A minha mãe chegou ao pé de mim com um pequeno estojo de maquilhagem...

Eu tinha pedido muito um estojo de maquilhagem, daqueles XPTO, pedi um monopoly... Eu era criança ainda, gostava de receber algo pois durante o ano não era frequente receber prendas ou outras coisas...Por isso para mim o Natal era o Natal...Mágico.

Mas não foi. A minha mãe deu-me um estojo e disse :

"Esta é a única prenda que vais receber e só porque eu insisti com o teu pai, senão não recebias nada."

Eu fiquei completamente triste. A pensar... Que mal teria feito? Porquê reagir assim...Os meus pais estavam desiludidos, mas eu não escolhi ser assim. Eu não escolhi ficar doente... Aconteceu.

No dia de Natal lembro-me e chorar, de me fechar no quarto e fazer exercício às escondidas. Não me  permitiam sair de casa e então eu pulava no quarto, fazia abdominais durante 1:30... E saltava quase duas horas... Sim eu fazia exercício no quarto. Horas e horas...Sempre que os meus pais saiam de casa ia para a bicicleta elíptica e estava mais quantas horas até eles voltarem... Mas retomando... Eu no dia de Natal tive a maior compulsão alimentar de sempre. Em primeiro lugar comi um bolo de festa de 2 kg sozinha. Sim sozinha. Devorei pacotes de bolachas. Comi doces. Comi como se não houvesse amanhã. Até o estômago rebentar. Se não tinha valor, ao menos que comesse muito e eu própria daria-me valor, pois os meus pais diziam que a culpa de tudo era minha.

Eu vou sempre dizer. Sempre. Ninguém tem culpa de ficar doente. Eu não escolhi ser assim. Eu não sabia como parar. Eu não sabia nada. Eu estava sozinha...

Durante o período que o meu pai tencionou ficar consegui aumentar de peso e cheguei aos 49 kg. O que me agradou disto do aumento de peso é que eu continuava magra.... As consultas em Coimbra continuaram a existir, mas o meu pai começou a ficar frustrado. Da espera... Para ser atendida demorava horas. Houve uma altura em que demorou uma manhã inteira. Nessa altura os meus pais entravam na consulta. Eu na altura pesava então 49 kg e o meu pai de certa forma mostrou-se desiludido e optou por não falar muito... Eu só me preocupava em contar bagos de arroz e fios de esparguete,,, Que disparate.Mas sim eu contava e media tudo ao milímetro, como uma verdadeira anoréctica.

Com o tempo voltei à escola. Lembro-me que os meus colegas estavam felizes por eu estar melhor...

Mas isso durou pouco. Quando fui à outra consulta estava nos 44 kg...

Como tinha perdido tanto peso? Não sei. Mas nesse dia fez-se luz. Eu tomei uma decisão que já andava a evitar há meses. E tomei a iniciativa de ser internada. Primeiro porque já tinha reconhecido que tinha uma doença. Segundo porque eu sozinha não estava a conseguir e terceiro porque precisava de um longo tempo sem estar em casa a ouvir dos meus pais que a culpa era minha...

Os meus pais entraram e contei-lhes da minha decisão... Eu sabia para o que ia. Não sabia quanto tempo iria lá estar mas também faria de tudo para não perder o ano. Na altura não me lembro bem da reacção deles, mas lembro-me de que me senti forte, mais crescida e ponderada. Nenhuma rapariga com o mesmo problema que eu optaria por se lembrar de ser internada. A primeira vez que ouvi tal coisa gritei ao mundo e arredores que não, que nem à força me levariam. E ali estava eu a dizer com toda a ressonância, que queria ser internada. 

As  minhas questões eram tantas. Será que as pessoas iriam sentir a minha falta? Será que eu ia ficar melhor? Será que ia ficar gorda...

O internamento tem muito que se lhe diga...Ajuda. Sim. Na medida em que te obrigas a todo o custo a ficar bem. Eu confesso que hoje em dia sinto-me na mesma. Não vos vou mentir. Porque as minhas paranóias tiveram origem. Obviamente que durante uns tempos a coisa correu bem, mas assim que cedi ao pedido do meu pai para ser novamente transferida para Aveiro, as coisas pioraram. Mas por agora fico aqui. 

 

E deixo isto....

 

Apesar de muita gente lhe chamar 'mania', a anorexia nervosa é um distúrbio alimentar que pode levar à morte. Estima-se que as taxas de mortalidade da doença se situem entre os 10% e os 15%; o suicídio ronda os 2,5%, segundo dados da Associação de Familiares e Amigos de Anorécticos e Bulímicos (AFAAB). '

A anorexia nervosa afecta, sobretudo, raparigas adolescentes, mas pode ocorrer nas mais variadas idades. 'Cada vez há mais mulheres de 40 e até 60 anos a sofrer disto', confirma José Delgado, responsável pelo núcleo de Lisboa da AFAAB. 'Também aparecem mais crianças com a doença. A mais nova que tivemos em consulta tinha 8 anos', conta Abel Matos Santos, psicólogo clínico do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria.

Também há rapazes anorécticos a proporção, a nível internacional, é de um rapaz para dez meninas; em Portugal, a diferença é de 0,3 meninos para dez raparigas, segundo o psicólogo. 'A característica mais comum da anorexia é a perda de peso, associada a uma gradual mudança de comportamento. A perda de peso é lenta mas progressiva e, normalmente, tem início com uma dieta normal, podendo também ocorrer de forma brusca. As tentativas de diminuir ou acabar com a restrição costumam ser encaradas com muita resistência.' Quanto mais peso perdem, mais medo têm de o voltar a ganhar e continuam a recusar comer, mesmo quando o corpo começa a traí-los. Aos poucos, perdem a alegria e o contacto com os amigos porque evitam sair de casa.

 

img_sintomas_da_anorexia_14104_orig.jpg

 

Sintomas:

-recusa em comer;

-preocupar-se com a confecção dos alimentos;

-Exercício em excesso;

-Preocupação com o aumento de peso;

-Episódios de jejum prolongados;

-Agressividade e apatia;

-ter rotinas obsessivas;

-mentir compulsivamente sobre o que se comeu;

-uso de diuréticos, laxantes para forçar o corpo a expulsar a comida;

-beber quantidades elevadas de água;

-comer isoladamente;

ter uma imagem distorcida;

-pele manchada ou amarelada, com pêlos finos;

-perda de densidade óssea;

-amenorreia;

-depressão....

-auto-mutilação

 

Eu tive quase isto tudo... Ou basicamente tudo. Só nunca vomitei.

 

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