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Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

E depois da operação, onde estou hoje?

Não sei como começar este post. A falta de tempo, as mudanças que ocorreram num curto espaço de meses foram tantas que isto vai começar sem grande raiz, porém siga.

A última publicação que fiz foi antes de ser operada. Na altura andava muito em baixo, foi um ano conturbado, onde trabalhei todos os dias, tinha dois trabalhos, tinha a corrida, tinha pessoas a quem tinha de dar atenção (e eu não dava)... Até que em Novembro surge a operação à coluna (a operação pela qual eu aguardava há cerca de 3 anos, que por negligência do hospital e minha, não fui operada na devida altura). Seguindo...

Em 2017 estava a trabalhar numa empresa, abriu concurso para os tribunais, a minha área de estudos e eu decidi arriscar e consegui. 

No mesmo ano e isto foi um culminar de mudanças, em Novembro estava previsto entrar nos tribunais a início de Dezembro, sendo a minha operação uma semana antes... Conseguem imaginar?

Acho que entrei num estado de colapso, entre o medo de ser operada e o receio de me mudar para tão longe de casa mas como medos não alimentam mudanças positivas decidi encarar tudo de ânimo leve.

No dia da operação fui à piscina ainda para "desanuviar", uma vez que correr andava cada vez mais difícil e eu não sabia bem porquê...

Já tinha abrandado os treinos, tomado medicação, já tinha feito descanso da corrida mas nada era suficiente...Iria descobrir no dia da operação que foi tardia. Estava agendada para as 11 da manhã e fui para a sala de operações às 23:00... A minha mãe foi-me levar até Coimbra e fiquei sozinha... Tenho 25 anos mas mãe é mãe e custou-me muito ficar ali sozinha, mas ser adulto é isto...É enfrentar o mundo sozinho. É assim que crescemos.

Saltando para a maca, já na sala de operações...

 

Duas grandes descobertas. O médico perguntou:

-Estes últimos tempos não te tens sentido mais cansada e com mais sono?

Ao que eu respondi que tinha passado os últimos meses a trabalhar todos os dias, muitas vezes mais que 10 horas e que ainda tinha outro trabalho e seria normal eu por vezes andar mais exausta...

E ele disse:

-Fica a senhora a saber que tem uma grande deficiência na hemoglobina, o seu sangue não circula como deve ser pois está com anemia.

 

Esta foi a primeira grande descoberta e a razão pela qual me doíam as pernas. O sangue não estava a ser devidamente oxigenado e eu continuava a treinar... Ovbiamente que as dores ao correr eram elevadas. Para terem noção da dor que sentia nas pernas... É como se tivessem as pernas com o dobro do peso, como se tivessem ido ao ginásio no dia anterior e tivessem de tal forma se esforçado ao ponto de andar a mancar... Eu andei assim cerca de 4 meses...

 

A segunda grande descoberta e a que me deixou em estado choque.

O médico informou-me que tinha uma das placas partidas numa das vértebras e que o material estava de tal forma deterioado que nem sequer sabe como é que eu conseguia correr. Engraçado é que o médico disse que eu podia viver bem com o material até ao resto da vida, quando na verdade o material estava a detiorar-se no meu corpo e a ser recusado. Relembrando que quando fui submetida à primeira cirúrgia após o acidente a médica disse que que teria de remover o material ao fim do ano. Em 2014, em Setembro fui operada para unir as vertebras e só passados uns anos, em Novembro de 2017 é que fui operada para remover...

 

Na consulta pré-operatória disseram-me que ia ser um procedimento simples...

 

Foi tudo menos simples e a recuperação nas semanas subsequentes foram dolorosas. Sofri mais que a primeira operação que fui completamente abaixo, mais em baixo fiquei quando soube que tinha 8 dias para me apresentar a serviço nos tribunais... Ainda não tinha casa em Lisboa ... Foi uma loucura.

Para terem uma noção, eu fui operada quase de madrugada e no dia seguinte estavam a mandar-me para casa... Mal me conseguia mexer mas como tenho alguma resistência à dor, liguei ao meu pai para me ir buscar... Ia ser praticamente uma hora de condução até  chegar a casa. Custou? Sim. Mas assim é o SNS...

 

Depois de 2 a 3 dias quase 80 % na cama, decidi que tinha de me começar a mexer e comecei a caminhar. Estava determinada em voltar a correr e a ser activa. E foi assim...

Comecei a tomar medicação para a anemia porque a minha alimentação não estava no seu apogeu (muita falta de apetite)... O peso começou a decair...

E os meses foram passando... Dei a minha primeira corrida em Lisboa, na segunda semana depois de ter iniciado funções no tribunal. Fui de madrugada e após chorei de alegria. Corri a umritmo médio de 5:15 mas feliz por ter corrido...

Andei assim  a correr somente uns km aqui e acolá e comecei a acumular km...Mas sentia que não conseguia voltar a correr mais rápido, sentia-me de alguma forma limitada e não sabia bem o porquê...Até que um dia o meu amigo Telmo decidiu pegar em mim e levar-me ao Jamor e conhecer o grupo de marcha e corrida e a atleta Sassi (Sandra Teixeira do Sporting) que tão bem me acolheu. O grupo é enorme e as pessoas são fantásticas. Naquele dia fomos todos divididos em grupos de ritmo. O Telmo disse que eu deveria ir com o grupo avançado mas eu disse que não me sentia preparada e que deveria ir com o intermédio (ou seja no grupo dos 4'50 a 5:15). O que não aconteceu. Não sei se por alma do destino ou por aquele bichinho que eu tenho em provar a mim própria o oposto daquilo que consigo fazer, fez-se uma luz. Acabei no grupo dos avançados (a começar entre 4'20 a 4'30) e assim foi... Terminei em bom, terminei feliz e dei uma chapada de luva branca aos meus acessos de falta de  confiança. 

A partir desse dia acho que foi sempre a evoluir. Mas desta vez eu tinha de ter juízo e ser consistente. Deixar as manias de lado e treinar de forma inteligente e não massacrar o corpo...

Os resultados foram aparecendo...

Eu comecei a pensar... Ou eu ando dopada ou então não sei. 

Em Janeiro foi quando fiz o campeonato nacional de estrada no Jamor. Nesse dia senti-me tão bem e não dei o que deveria dar (mais uma vez não olhei para o relógio). Quando cheguei à meta e vi que ia fazer 41 minutos nem queria acreditar... Comecei a ter mais confiança em mim e nas minhas capacidades. Já disse várias vezes, não sou nenhuma atleta profissional e para mim ver aquele tempo fez-me pensar que eu consigo ir além daquilo que eu nunca pensava ir...

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"Campeonato Nacional de Estrada no Jamor, ia totalmente tranquila e sem olhar para o relógio, podia ter ido abaixo dos 40 minutos se fosse esperta xD"

 

E comecei a ficar mais focada em treinar, a tentar gerir muito trabalho ( a fazer mais de 8 ou 10 horas de serviço e quem está num tribunal entende) e por muita insistência do meu namorado lá decidi começar à procura de uma pista para voltar aos treinos de séries...E comecei a ser orientada por ele uma vez que moro em Lisboa e o meu treinador é da associação de atletismo de Aveiro, mas continuei a treinar sozinha mas com orientação (às vezes a fugir a algumas orientações mas a ser consistente).

Comecei a sair da minha zona de conforto... Fiz o meu primeiro corta mato curto e depois fiz o segundo, em que mais uma vez lá consegui melhorar e sofrer um pouco mais...

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"Eu fora da minha praia num corta mato curto, em que foi duro mas mais uma vez me superei e trouxe a primeira medalha de atletismo de bronze para casa "

 

 

 

Fiz a corrida do Fim da Europa, mais uma vez superei as minhas expectativas que não eram nenhumas e consegui o primeiro lugar com 1,09 nos 17 km da prova, uma prova dura pelo seu sobe e desce...

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"Neste dia na Corrida do Fim da Europa, 0 expectativas, um primeiro lugar para mim e para o meu panda :3"

 

Bati o recorde aos 10 km sem ir em prova numa prova e acabei em primeiro, pese embora quem fosse a competir também ia a treinar, mas fiquei super orgulhosa do que alcancei nesse dia...

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"Em Penalva de Alva na prova distrital onde o meu namorado ia competir e eu treinar e cheguei em primeiro (embora quem tivesse ganho ia em treino "

 

 

 

E chegamos ao dia D... O dia em que eu queria muito fazer a meia maratona de Lisboa, não pela beleza do percurso (porque não é bonito) mas por estar a residir em Lisboa e estava curiosa em saber até onde a minha cabeça era forte o suficiente para dar força às pernas para correr aquela prova.

 

Volvendo atrás no tempo...

 

A minha melhor marca na meia maratona era de 1'35, em Lisboa lesionada... Depois dessa prova fiz uma prova a nivel distrital e rebentei e nunca mais voltei a correr bem. Sempre com lesões, parava e retomava e sempre com a plateia dos críticos a dizer-me que eu fazia tudo em excesso... Mas eu não sentia que fosse pelo excesso, sentia que algo em mim não estava bem...Até ter sido operada e tirado todas as teimas.

Consegui provar a muita gente que não era eu e a minha teimosia, eu quando dizia que não estava bem era porque não estava e não por querer fazer por estar bem. Porque eu tentei muitas vezes estar bem e seguia os conselhos, desde ir aos fisioterapeutas desde respeitar o descanso e alimentar-me bem, mas não saía daquele desconforto. Isso consumia a minha confiança e gradualmente correr já estava a deixar de ser prazeroso. E eu não queria desistir do meu amor à corrida.

 

Dia 11 de Março de 2018. A minha primeira meia maratona oficial após ter sido submetida à operação. Não tinha expectativas nenhumas, só um objetivo. 1'30 era o objectivo. Até aos 10 km fui olhando para o relógio, quem me conhece sabe que eu nunca olho para o bichinho mas nesse dia sentia-me tão bem que decidi ver quanto é que conseguia fazer aos 10 km.

Quando apitou aos 10 km, olhei e nem queria acreditar que dei um mini pulo quando corria. 37 minutos. Fiquei em êxtase. Estava a correr uma meia maratona e a atingir um objectivo que já tinha há 4 anos... Baixar dos 40 minutos aos 10... E consegui. Depois dos 10 km decidi que não iria olhar mais para o relógio e ia deixar ir onde o corpo me permitisse porque foi uma luta até ao 17 km com o vento que se fez sentir, tanto que no dia antes da prova a organização teve de alterar a partida original que seria na ponte 25 de Abril. 

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"A chegar à meta"

 

Durante a corrida ouvi imensa gente a berrar pelo meu nome e eu ia tão no meu mundo que só queria que me deixassem no meu mundo (perdoem-me por isto) quando estou a correr só quero estar comigo própria porque já o disse inúmeras vezes, eu corro contra mim mesma e não contra ninguém. Porque para mim correr é desafiar a mente e o corpo, é ser resiliente e corajoso e ter a capacidade de sofrer. Já aprendi muito enquanto corria só a refletir, tanto que ás vezes levo música e nem sequer me dou ao trabalho de concentrar o ouvido no som ou na letra mas sim nos meus pensamentos. Sou uma pessoa anciosa por natureza e estou constantemente a pensar. Quem me conhece bem sabe que às vezes disperso e fico distraída. É um defeito mas eu sou assim.

 

E posto isto. É um mega apanhado de como começou 2018. Começou em bom, com algumas dificuldades sentidas por me ter mudado para Lisboa. Perdi penso que quase 10 kg. Neste momento o meu peso oscila entre os 48,5 kg e os 49 kg. Confesso que nunca foi segredo que sempre quis perder peso para estar mais leve para correr mas tenho noção de que o peso que perdi não foi por ter uma recaída, foi porque quis e as condições o permitiram, tendo em conta a minha anemia (dá-me falta de apetite) e a agitação que é a minha vida, que é trabalho, treino, descansar, preparar refeições ...

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E a minha motivação para aguentar estar longe dos que amo e ter imenso trabalho aliado às preocupações que é viver sozinha qual é? O facto de eu já ter batalhado tanto para estar onde estou hoje e digo humildmente que me orgulho de tudo o que fiz para o conseguir porque não tive que recalcar ninguém e fi-lo por mérito meu porque eu sou determinada e de ideias fixas.

 

Objectivos na corrida, sinceramente não posso dizer que os tenha delineados porque cada dia é uma aprendizagem e Deus sabe que eu passo a vida a aprender com os meus erros e ainda bem que é assim. Os meus treinos são sempre sozinha e os da pista os mais custosos para mim também o são. Mas o que me faz ir sem queixas com um sorriso na cara é o facto de eu ter tido a oportunidade de voltar a correr com saúde e com felicidade que já não acontecia há muito. Tenho imenso prazer em correr, mais ainda quando partilho os treinos com os meus amigos mas tenho maior prazer em chegar ao fim do treino e dizer a mim própria que superei a cabeça, o cansaço físico e mental e que sou mais forte de dia para dia. O objectivo principal que tiro da corrida é o facto de me tornar uma pessoa mais resiliente e passo a citar quem corre tem que saber sofrer e esse sofrimento torna-nos mais resilientes na vida pessoal e profissional.

 

E posto isto, aguardem um próximo post.

 

E uma grande novidade que foi o auge ... Ganhei prémio monetário na meia maratona :D . Ora digam lá que batalhar todos os dias um pouquinho não tem repercussões que não esperávamos vir a ter? 

 

Um conselho...

 

Lutem muito e muito, mesmo que doa, mesmo que chorem, mesmo que digam que não são capazes porque vocês são mais que aquilo que pensam ser, nós somos mais que um pensamento de limitações, nós criamos teias de aranha na cabeça com problemas que nós próprios criamos, por isso se estás a ler isto e achas que não és capaz de fazer uma coisa pergunta a ti mesmo quantas vezes tentaste. Pergunta a ti próprio a razão de ser que te inviabiliza a prosseguir com o teu sonho. Tu és o teu próprio inimigo mas a vantagem disso é que tu te conheces melhor que ninguém e só tu sabes como ir contra ti.

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Um beijinho enorme *****

 

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