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Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

E o bichinho quando surgiu?

Quando uma pessoa diz: "Eu não posso correr, não consigo!" Eu só penso. Não pode ser, é impossível e eis as razões:

As pessoas correm para não chegar atrasadas, correm para alguém que já não vêem há muito tempo, correm para fugir de alguém que também já não vêem há muito tempo (mas não a querem ver), correm para fazer as lides da casa, no trabalho, nos seus hobbies. CORREM. Como se a sua vida dependesse disso. Nós corremos no dia-a-dia e não nos apercebemos disso, corremos para alcançar um objectivo. É assim na vida real, mas nem sempre nos apercebemos (Ainda hoje no banco vi a funcionária do banco a correr atrás de um cliente, para lhe dar algo que se esqueceu).

 

Eu corro desde que me lembre. Quando era pequena,era competitiva, era mais rápida que os meninos na escola e fazíamos partidas. Era mais rápida a fugir a apanhada. Eu adorava a velocidade e gostava da sensação de ser boa em algo. Quando tinha de ir para a terra mais a avó, eu fugia, corria pelo campo fora e desaparecia. Apreciava a liberdade mais que tudo e também não adorava arrancar ervas e apanhar batatas (nem sequer gosto de batatas, porque tinha de as apanhar?).

 

Ao longo dos anos a corrida fez parte da minha vida, mas tal como as pessoas hoje em dia, eu já não me apercebia que corria. Durante o tempo que tive anorexia nunca experimentei correr. Mas fazia outras coisas que falarei adiante.

Após concluir o secundário, fui para a Universidade de Coimbra. Fui à pressão, sem gostar do curso. Na altura eu só queria ser uma estudante de Coimbra e estar ao pé do namorado da altura. Que burra que fui! Mas serviu de lição. A sensação de vazio por não gostar do curso, por estar longe da família e nem a ver mesmo ao fim-de-semana (pois ao fim-de-semana tinha dois trabalhos) provocou um enorme desgaste emocional, o qual me fez sentir vazia por dentro. Como preenchi o vazio? Ah porra, decidi começar a fumar. Que maravilha. Andar de charuto na boca. Que exemplo Miriam, tu que andavas sempre a criticar o paizinho por fumar, que fazia mal à saúde. Ora, e lá fiquei com um vício.

Também decidi que iria inscrever-me no ginásio e assim o fiz mais tarde. Mas inicialmente corria as ruas de Coimbra. O bicho foi-se instalando, mas o tabaco ficou e piorou. 

 

No final do semestre decidi sair dali, começar tudo do zero. Que raio, vou estar 3 anos aqui angustiada? A sofrer? E depois no fim se for necessário acabo no desemprego porque odeio isto. Saí. Paguei as propinas. Ok. Parte de uma vida de poupanças por lá ficou, mas siga que vou trabalhar esse ano até conseguir entrar num curso qualquer,

 de preferência em Aveiro. Assim foi. Arranjei trabalho. Trabalhei durante esse tempo e voltei a fazer exames de ingresso para a Universidade. Consegui entrar no curso que queria. Não era o meu sonho mas era algo que prometia. E fui. Com fé na alma e nos leões. Nesse ano também decidi que iria deixar de fumar. E então porquê assim de repente?

Engordei 10 quilos! Oh sim pesava 70 kg,estava ali no limite. Nunca me tinha visto tão gorda. Fumar aumentava -me drasticamente o apetite. Para piorar. Eu era a menina que ia ao ginásio e fumava, assim tipo antes de treino. Pré treino (um cigarro a potencializar tudo e nada). Um dia  a correr na passadeira tive uma dor forte do lado do coração. Fui ao chão. Cai da passadeira com uma dor tão aguda que ainda hoje me recordo, além do ridículo de estar no chão. Porquê?Por pura e mera estupidez!

.Decidi que eu estava errada. Eu no fundo sabia. Fumar e treinar? Quase nem comia.... E mesmo assim não emagrecia. Poooo...

Eu comecei a fumar com um propósito. Porque sabia bem ter algo que me ocupasse a cabeça... Então decidi ocupar a cabeça com o quê? Não, esperem que não foi a corrida. Foram as caminhadas. Nos dias em que ia ao ginásio, fazia sempre uma caminhada de uma hora. Ia para o ginásio a pé e voltava a pé. Aos fins de semana ia para o trabalho a pé (sim o trabalho era longe como o raio), imaginem ir da Lomba a Vagos a penantes? Ir e vir? Se emagreci. Oh se emagreci. Continuei a fumar, oh se continuei mas muito menos e com menos stress. Ia largando o vício assim aos poucos... Comecei a fartar-me de caminhar. Às vezes ia para Calvão a pé. E chateava-me que demorava umas 2 horas para terminar. Comecei a correr de volta para casa. Lá ia correndo e lá ia conseguindo. Que vitória. Na altura não cronometrava nada. Sabia mais ou menos quanto tempo demorava a chegar a casa. Menos de uma hora. Não sabia a distância. Na altura andava a falar com um rapaz incrível, e assim de repente tive de deixar de fumar, porque eu nutria mesmo algo forte por ele e não o queria perder. Lá deixei de fumar assim com o maior vigor. Com o tempo ia continuando esta minha rotina de caminhar e correr e notava que cada vez demorava menos tempo e respirava ainda melhor. Decidi começar a cronometrar as corridas. Numa semana fazia quase 4 vezes distâncias de 17, 18, 16 km. Nunca menos. sempre a médias de 5:30 ou abaixo. Nessa altura não percebia nada de médias. Corria porque corria, quanto mais longe melhor. Já estava magra como era antes de fumar. Que alívio. A par com isto ainda ia ao ginásio. Eu era capaz de tudo e de melhor. Era feliz.

 

Na altura, também mudei de ginásio e conheci um rapaz, ele sabe quem é. Lá adicionado no facebook, mas a quem eu não passava cartão xD. Pensava que o conhecia de um trabalho onde estive, mas afinal ele era o gémeo. Oh porra. Mas pronto, lá continuei a ser uma anti-social no ginásio, sempre com a mania de agachar, correr na passadeira como se não houvesse amanhã. Já não me recordo a data exacta que comecei a falar com ele sobre corridas, porque simplesmente nem sabia se ele gostava de correr e acho que ele tão pouco. Fazíamos treinos funcionais, e nesses treinos, houve ali um flash. Ah porra que ele corre. E ai porra, que ela também! #correporra(daí vem)

 Lá ele foi-me pressionando mais tarde para os tempos de corrida, para o pace. (ai o que é um pace?). Oh que ignóbil. Sim sim eu corria, mas não pescava nada de teoria. xD E também me comecei a interessar pela teoria. E lá ia estudando. Se não fosse para ser uma técnica de justiça, de certeza que estaria ligada ao desporto ou à nutrição, outra paixão minha.

 

Mas vamos adiante que o post já vai longo....

 

Em 2014, no Verão sofri um acidente. Um acidente que quase me custou caminhar. Lembro-me desse dia, das dores, do pânico e lembro-me de esconder às pessoas o quão assustada estava só para não as assustar. Lembro-me de ver meu namorado a sentir-se culpado , sem culpa nenhuma, do meu pai com ar apagado... E eu a tentar saber o que se passava. Naquele dia fracturei as vértebras.... Tinha fragmentos a pressionar a medula espinal. Por mais um cm que me mexesse havia um enorme risco de não voltar a andar. Como lidar com isto? Não sei. Chorando, gritando. Sei bem as vezes que implorei no hospital para me levantar e não poder. Que bati num médico. Que chamei-lhe nomes... Sei disso tudo. Sabia que iria ser operada. Tarde. 

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 "Eu antes da operação, a sorrir com muitas dores"

Eu fui operada sim. Uma semana depois. Durante essa semana é difícil explicar as dores que se sentem e a dor de ser ignorado num hospital com mais pessoas. Se me disserem que sou doida por ir correr às 6:00 da manhã, eu digo que às 6:00 da manhã agoniava no hospital com dores, sem poder sair da cama, ligada com uma sonda, com tubos nas mãos para ser sedada, e que tinha a mão inchada de colocarem mal o tubo, como se eu fosse um animal. Que chamei e nunca ninguém veio....Quando chegou o dia de ser operada, lembro-me bem A anestesista disse: "Que unhas tão giras!" Sim eu tinha unhas de gel (Rozita Matias), as unhas foram as únicas sobreviventes deste acidente maluco. Eu só disse : "Sim realmente as unhas não se partiram, só os ossos". E assim cai adormecida. Só me lembro de acordar numa marquise, e mexer os dedos para ver se não estava paralítica. Não estava, mas estava a escorregar. Comecei a delirar, não sabia onde estava. Adormeci. Gritava amor amor (o meu namorado). Adormeci. 

O acidente de kart fez-me dar valor... Dar valor ao movimento, dar valor à vida. Dar valor às pessoas. Eu não conseguia imaginar a minha vida sem correr... Não seria eu...

Eu tive de aprender a andar, sim, isto é estranho, passei uma semana deitada, não podia nem me sentar na cama. Nada. só mexer o pescoço era um perigo. A primeira vez que me levantei desmaiei. E a segunda também. E mesmo assim insisti em conseguir. No 3º dia já caminhava. Já me senti a super mulher. Obviamente. Também com parafusos nas costas quem não se sente. As dores aligeiraram. Já não tinha dores agoniantes, só dores que me permitiam ter esperança de ali sair e voltar à minha vidinha. Ajudei as velhinhas do meu quarto.Dava-lhes de comer, fazia-lhes companhia e a elas a mim... Uma vez impedi uma senhora de se espatifar no chão... Tinha Alzheimer... Ninguém veio em socorro, lá andavam a fumar, e ainda odiei mais o tabaco. Mas lá a meti na cama novamente, ali eu toda robotizada, acabada de ser operada e a caminhar feita mula de carga. Mas consegui. juro a Deus que eu consegui.

 

 

No final da semana já tinha recebido alta. Antes de ir embora, uma pequena reunião com os médicos para saber se está tudo bem, se não sinto dormências, etc etc. Pergunto se posso fazer desporto.. Não! A resposta é não... E evita subida e evita isto e evita sei lá mais o quê. E eu a entrar em pânico. Ai que vou engordar. Mas não. Aconteceu o oposto. Emagreci tanto mas tanto que a minha roupa nem servia... Lá iam as calças todas para baixo.. Eu sentia-me bem. Mas também andava com um colete que me fazia parecer um robot. Eu não quis deixar de ser activa. Continuei a caminhar. Lembrei-me dos tempos em que caminhava. Repeti o mesmo. Só por um pouco sentia-me bem. Sentia-me normal. Escondia o colete, mas às vezes não escondia. E se se vir? Não faz mal. Eu estou aqui a caminhar. Uma coisa que fiz mal, é que volteia  trabalhar. (desculpa Sra.. Medica que se descobrir mata-me), mas eu fui. Mas o meu patrão apoiou-me imenso. eu não podia deixar de ganhar dinheiro. Tinha a Universidade para pagar. Ao fim de 3 meses comecei a fazer o desmame do colete. Parecia que todos os momentos em que o tirava as costas se iriam partir ao meio, a sensação é mesmo essa. E aos 4 meses, voltei a aprender a correr. Lembro-me bem da 1ª corrida. 6 min/km. chi que mau,,,, Mas mandei logo uma mensagem ao meu namorado e ao meu amigo a dizer. Consegui correr, consegui correr. Parecia que tinha ganho o maior prémio do mundo. Pouco a pouco sentia-me eu outra vez... Voltei ao ginásio, voltei a correr. Tudo a passo de caracol. Mas voltei com garra. Não tomo mais o movimento como um bem garantido, não sabemos o que nos pode acontecer... Eu sem correr não era eu... Não era e pronto. Haveria de saber um dia lidar com isso, mas não saberia o dia. Mas não tive de lidar. Só tive de lidar com este fardo. 

 

Com o passar do tempo ia sempre dizendo ao meu amigo os meus melhores nos tempos, e ele também já andava a correr também para perder peso (excesso de bulking) xD. E também ia partilhando. Íamos lá lutando nisso juntos.e Puxando um pelo outro. O objectivo para mim ainda era fazer 10 km abaixo de 50 minutos e consegui. Não me lembro o dia, mas sei que cheguei lá e hoje nem no meu pior dia faço 10 km em 50 min. Já fiz 10 km inúmeras vezes e melhorei... Mas o que é importante reter?

Fazer 10 km naquele tempo ambicioso é um objectivo. Se tu consegues chegar lá, consegues fazer outras coisas na vida. Consegues ser a melhor versão de ti próprio. Eu não ia correr para mostrar tempos ou resultados, eu ia correr para ser melhor que ontem e ser melhor amanhã. Correr não é só uma actividade física. Quem corre sabe o que é. É preciso sofrer, é preciso abdicar de algo, é preciso lutar, sim lutar! Actualmente o meu melhor tempo dos 10 km são 43 minutos. Quero chegar aos 40 minutos. Porquê? Porque eu já consegui muita coisa num curto espaço de tempo, porque sei que sou capaz, e sei que na vida também se aplica. De nada adianta esperar que as coisas aconteçam. Somos responsáveis por nós, e somos a nossa melhor concorrência.

 

Em resumo... Sim eu comecei a correr para deixar de fumar porque cai duma passadeira com uma dor no coração e por não ter oxigénio suficiente para aguentar o exercício, sim eu já gostava de correr antes porque sempre fui assim e porque vem da infância. Nós crescemos a correr de um lado para o outro, pese embora hoje em dia não seja bem assim...Infelizmente.

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 "Eu na primeira meia maratona, lesionada e ainda assim sai de lá bem classificada, esqueci mencionar o facto que ia passar umas musicas à DJ XP "

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Um lema meu," Não tentes provar nada a ninguém, senão a ti próprio primeiro".

 

No próximo post irei falar das coisas que precisam para começar a  correr, ou a fazer outro desporto qualquer. E lembrem-se de uma coisa: o nosso corpo é o nosso melhor instrumento, é nosso, deve ser bem cuidado e  não menosprezado. Ele dá-nos inúmeras possibilidades de sermos felizes na vida, mas ele só se move com a força da cabeça, com a nossa vontade. Se querem que ele se mova, sintam isso, sintam que lhe devem isso e o resto virá por acréscimo.

 

xxx

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