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Aquela Runner Obcecada

Aquela Runner Obcecada

Se praticas deporto e gostas, lê este post

Todos os atletas, sejam profissionais ou não deveriam passar por alguma lesão na vida...

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Calma não me matem já... eu quando digo as coisas é porque tenho um fundamento para tal e com esta publicação quero explicar o porquê...

Disse à minha mãe que se o meu exame (raio x) corresse bem voltava a escrever no blog. A verdade é que os últimos meses foram complicados, não queria falar com ninguém, andava deprimida, revoltada com a vida... Dou um exemplo do período em que estive de baixa médica:

Quando finalmente já podia caminhar (Meados Janeiro)um certo dia, dia esse que as temperaturas estavam bem bem negativas,tinha tido um péssimo dia na fisioterapia, estava exausta (caminhar e nadar cansa), tinha sede... Tinha ido caminhar ao frio e não sentia as mãos... Queria abrir uma garrafa de água e não conseguia. Tive um ataque de ansiedade que me tomou naquele momento em que tentei abrir a garrafa. Comecei a hiperventilar, a dizer asneiras, irritei-me ao ponto de quase partir a louça na banca ...Porquê? Não conseguia abrir  a merda de uma garrafa...

Outro exemplo que se passou antes de eu ficar de baixa, que ocorreu no primeiro dia em que tinha iniciado o meu primeiro tratamento de fisioterapia(thank god que foi só um ou não estava aqui a escrever ). Nesse dia estava capaz de me atirar das escadas rolantes...Porquê? Não conseguia ir para as escadas porque estavam demasiados rápidas e estava a adaptar-me ao uso de uma bota ortopédica, que é só limitadora, e claro tinha-me sido dito no dia anterior pela fisiatra que com sorte e paciência só voltava a correr em Março...

De certo vocês que leêm isto já sentiram na pele a sensação de impotência. Sabemos o quão horrível é, ou seja, sentir que és um estorvo, um atraso, alguém que não acrescenta utilidade à sociedade, sentires que és um coitadinho e quase que te querem levar ao colo... Não te sentires tu ... Não tens a tua energia...Tu não és tu quando te tiram algo que gostas... O pior é quando isso condiciona a tua vida no geral... E nesse dia ao é das escadas rolantes, estava ao telefone com a minha mãe a chorar, a pô-la a chorar a 200 e tal km porque eu não conseguia descer as escadas rolantes.Aquele momento ali a chorar, aquela frase do fisioterapeuta que ressoava na minha cabeça(isto porque eu disse que iria continuar a trabalhar) e ele disse: "Recuperar? Disto e a trabalhar? É possível...mas boa sorte que vai demorar..." 

Uma fratura de stress is no big deal... O problema é quando tu não fazes vida do atletismo somente e não te podes dar ao luxo de te dedicar a um tratamento XPTO, em que o foco é recuperar a 100% e não recuperar a meio gás entre julgamentos...Não és um profissional, logo só por aí é impossível gerir a recuperação de forma leviana. 

Pior fiquei quando  após o drama das escadas, após finalmente ter conseguido descer até ao estacionamento, porque demorei cerca de  10 minutos a chegar ao carro. E mais estúpida e ridícula se torna a situação, pela forma como lidei com ela nesse dia (desespero insano, idiota,chorar compulsivamente e dar berros no carro..também dei um soco na coxa para completar a dor emocional) ... Eu não conto tudo certo? Alguém  com ansiedade vai entender este comportamento...mas adiante

Nesse dia perdi 3, quase 4 horas ...Para ir fazer um tratamento de ($%@€♤) de uma hora...  A voltar para o Tribunal comecei a pensar e a tentar equacionar formas de rentabilizar o trabalho e a recuperação... "Como vou fazer julgamentos de bota e muletas?" "Como é que vou trabalhar se tenho que estar em pé, sentada?"

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, os funcionários judiciais têm que se mexer (e não é pouco). Simplesmente cheguei à conclusão que eu não ia conseguir ser produtiva, ia acabar por atrapalhar os outros porque ia depender deles e eu não queria. Tomei a decisão dificil de que não bastava apenas deixar de treinar... Eu tinha que parar de trabalhar. 

Quem me segue há algum tempo sabe que eu após ser operada depois do acidente comecei a trabalhar depois de duas semanas e sem reabilitação física (sem ter as vértebras consolidadas) . Aquando da segunda operação (novembro de 2017) tive alta no próprio dia, estive três dias de cama e uns dias depois já estava a trabalhar e passada uma semana estava a correr.

Conclusão...

Há lesões e lesões...

Há as lesões por algo que não controlamos (neste caso o meu acidente) e há as lesões pela negligência que damos ao corpo.

Não é segredo nenhum que eu de certa forma lido com dor... Dor física no caso é o meu ponte forte, isto porque já fiz provas doente, já fui fazer 20 km a 4'19 após ter apanhado um vírus e estar a vomitar o dia anterior sem me conseguir levantar, fiz uma ou duas provas com dores insportáveis nas pernas após me ser dito que tinha sindrome compartimental crónico, já corri debaixo de sol (36 graus com essas dores nas pernas), já fiz treinos de séries após ter caído no dia anterior e ter deslocado um pouco o ombro, lixado o joelho e pisado o queixo... 

Lembro-me que fiz o meu primeiro trail à séria (26 km) , ter caído ao 7º km, ter dado uma cambalhota por ali abaixo e choramingar 2 minutos e pedir para não chamar ninguém, levantar-me com o joelho embatatado a sangrar como se não houvesse amanhã e completar a prova ... Sem água...

O porquê de eu ser assim não sei... É mais a cabeça a dizer-me para não desistir... Mas quando me dói mesmo é porque dói... Mas esta última lesão que tive não sei bem ao certo como fiz. Pode ser tudo e nada, mas o que me levou a chegar ao ponto de "OK. NÃO CONSIGO." foi o facto de eu ter ignorado aquela dor... Foi simplesmente ignorância. Associei ao facto de ser uma coisa que poderia ser normal (tinha feito quase 500 km em Outubro) cheguei a 11 de Novembro com quase 200 km... Claramente aquela dor era só o corpo a dizer (andas a abusar sim mas não é nada de grave). Grave, grave não foi. Grave é quando te magooas ao ponto de não conseguir fazer nada o resto da tua vida. 

 

Onde quero chegar com isto?

 

Por muito que sejamos resistentes às dores, ao cansaço muscular e tudo quanto o corpo nos grita (ABRANDA)... Temos que entender determinados sinais que o corpo nos dá antes de ser tarde demais...

E eu digo que todos os atletas devem ter isso presente (nomeadamente sofrer uma lesão) para poder conhecer melhor o próprio corpo, as suas limitações, a forma como recuperamos (o tempo, tratamento...) para no futuro criar uma base de defesa para não voltar a acontecer. Pode soar um pouco estranho mas este mês e meio em que estive parada, quase a arrancar cabelos, a ser insuportável e negligente, perdi imenso tempo a pensar nas coisas e na forma como lido com elas. 

Se me perguntarem se foi fácil para mim estar parada este tempo ovbiamente que irei ser frontal e dizer que não, não foi. Foi duro e só tinha uma pequena fratura de stress num osso insignificante. Imaginem se tivesse sido uma fratura no fémur (o quão desesperada iria ficar)... Se me perguntarem se fiz tudo certinho? Irei novamente dizer que não.

Logo no primeiro exame rx que fiz em Novembro (muito antes de saber que tinha uma fratura) devia ter sido inteligente e não inventar... De facto disseram-me que tinha uma inflamação... Que eventualmente decorridos 15 dias voltaria a correr, mas esperta que sou decidi contrariar e fazer exercício igual - não consigo correr ok! Mas posso ir ao ginásio. Fazer o quê? Bicicleta dizia o médico, mas não especificou...Logo bicicleta o cycling está incluído ... 

Já estão bem a ver...

 

Cycling impõe que te ponhas em cima da bicicleta a suportar o teu peso, logo, eu mesmo sem correr consegui agravar a inflamação... Verdade seja dita, fiz as aulas e senti imensas dores no tornozelo... Mas obrigava  a minha cabeça a afirmar que era uma mera inflamação... De certo iria passar após tomar o anti-inflamatório...

Já sabem o resto da história... 

O que aconteceu em suma foi ignorar todos os sinais físicos que o meu corpo me dava e tentar convencer-me que não era nada de mal... Que iria passar como sempre me passou... 

Foi diferente neste caso. 

Já fiz pequenas microruturas, inflamações, distensões... E tudo passou... Eu pensava que aqui ia ser diferente.

 

E agora o cerne da questão...

 

Porquê ? Porque é que um atleta (seja ou não profissional) deveria passar por isto?

Para ser responsável. Para ser respeituoso com o seu corpo. Para aprender que não, não somos nós que mandamos, mas sim as nossas necessidades. 

No dia em que comecei a ter as dores o meu corpo pedia apenas uns dias de descanso... Só isso (Miriam por favor abranda um dia ou dois... Não vais morrer por isso...) Mas teimosa e má como sou para comigo mesma ignorei-o... E sabem que mais... O meu corpo sofre demasiado...

Seja porque como mal e obrigo-o a passar horas sem comer...

Seja porque o obrigo a suportar horas e horas de exercício ... (sendo franca e brutalmente honesta, em Janeiro consegui fazer cerca de 350 km só em caminhar, fora a natação e isto com parcas calorias por dia...)

Seja porque sofri um acidente e o crucial para mim era trabalhar e estudar e não estar de repouso na cama

Porque tive anorexia nervosa e tenho porque continuo com pensamentos e comportamentos errantes que fazem com que o meu corpo clame por ajuda...

Seja porque eu ignoro o cansaço e ao invés de tentar dormir penso nas preocupações e nas incertezas e nas inseguranças...

 

Eu sou o meu próprio inimigo e escrevo isto, não como forma de dizer : - hey olhem para o meu mau exemplo - e não o façam!...

Não...

Escrevo isto para dizer que uma simples lesão me fez pensar tanto e afectou tanta gente que isso fez-me descer um pouco à terra.

Prometi à minha mãe que iria à consulta de distúrbios alimentares... Prometi a pessoas que me importo...E no fundo eu devo isso a mim. O que eu sofro faz sofrer as outras pessoas...No dia em que perdi as estriveiras por causa das escadas rolantes consegui pôr a minha mãe a chorar...

Consegui pôr a minha mãe a chorar um dia em que lhe liguei desesperada a dizer que a fisiatra me disse que não podia fazer desporto nenhum e lhe disse vou deixar de comer. Nesse dia não comi nada mesmo... Aliás a raiva que sentia era superior a qualquer fome ...E a partir daí a minha alimentação ficou ainda pior 

Neste último mês restringi-me fortemente ... Bebi água como se não houvesse amanhã e entupi a cabeça de pensamentos estúpidos. Todos os dias a ver no espelho e a tirar fotos de comparação a ver se tinha engordado ou não... E querem saber? Eu nem sei se engordei, se emagreci... Simplemente estou numa fase em que não me estou a aceitar...

E por isso esta lesão foi importante...

Não só para me dar uma lição... Mas para me fazer tomar uma decisão importante de procurar ajuda ao fim de 10 anos... 

 

O meu medo não é o que os outros pensam de mim, mas é de mim. Porque sei quão instável e perdida eu posso ficar das ideias...Ser incoerente e tratar mal as pessoas sem sequer me aperceber. 

Uma lesão física faz-nos pensar nas razões pelas quais chegámos a ela e isso parece dramático, contudo, aprendemos muito. Mindset... Eu até acho que fui muito resiliente a aceitar que tinha que efectivamente estar parada.

 

Dia 30-01-2019 

 

Primeira corrida do ano.

Primeira corrida após a lesão.

Felicidade define.

Eu adoro correr... A razão? Vai além do benefício emagrecer ou não ter que me preocupar com o peso... 

Eu adoro correr porque me faz sentir viva, me faz ser uma pessoa melhor, resistente a tudo e todos e capaz de fazer mais e melhor. Correr faz-me sentir realizada. Não são só as endorfinas. Não é só o facto de quase ter perdido a mobilidade com o acidente que gosto...

Corro desde que aprendi a gatinhar... E a sensação de ser livre e ser eu mesma sem ter que me preocupar com os problemas. 

Há quem diga que sou maluquinha (ou vais correr à chuva, granizo, calor e tra tra...)

 

Não é uma coisa que se aprende só a gostar. Há pessoas que aprendem a gostar e as que nascem com uma paixão que acorda em alguma altura da tua vida... E eu lembro-me desse dia.

 

E pronto...

 

Espero não ter sido demasiado confusa e incoerente... Escrevi aquilo que me ia na mente.

 

E aqui fica o registo de ontem :) e see you num próximo post num blog perto de si, aos pacientes que leêm os meus desvaneios e aos apaixonados da corrida como eu. . E pornto vou ali correr , porque tenho todo um ano para poder fazer aquilo que gosto sem me lesionar 

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******

 

 

Miriam Martins ... 

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